terça-feira, 26 de junho de 2012

A doçura e a amargura do viver

Rio, 26 de junho de 2012.
Mais um dos meus sumiços repentinos. Mais uma das minha explicações. Dessa vez, uma punhado de explicações.
Sumi porque estive enrolada com a escola. Sumi porque meu computador foi pro beleléu (e junto com ele meus textos também). Sumi porque estava com bloqueio criativo. Sumi porque estava com preguiça. Não propriamente de pensar, na verdade, era preguiça de organizar os pensamentos. Mas já chega. Está na hora de arrumar a casa e pôr a comida à mesa.

Faz um pouco mais de um mês, desde que meu avô morreu. Ainda é muito estranho. Ainda lembro dele com sua boininha todos os dias. Especialmente, na hora dormir que é mais conhecida para mim como hora de devanear.
Mas não choro mais.
Alguns dias o coração aperta um pouco mais, no outro dia alivia. Mas a saudade é realmente constante. Mas agora é quase que como uma saudade gostosa. Quase. Saudade nunca é realmente uma coisa muito boa, mas quando não acompanhada de muita tristeza e pesar, ela se torna suportável. E é nesse ponto que estou. A coisa está suportável e administrável. E, surpreendentemente, não caminha mais para a via da melancolia.
Não costumo mais lembrar dele lamentando profundamente que ele não esteja mais aqui, mas sim me sentindo grata por algum dia ele ter estado aqui. E isso não veio como resultado de psicologia ou auto-ajuda, simplesmente veio. Parece que, naturalmente, muito embora não consigamos compreender e fiquemos tentados a desistir, é a própria vida com seus truques e surpresas que nos ensina a seguir em frente.
Além disso, desde do dia do velório (Que dia mais terrivelmente traumatizante na minha existência!), ando pensando muito na morte, na importância de uma religião e mais do que nunca ando procurando sentido na vida. Nos primeiros dias, eu via a morte em tudo. Eu olhava para as pessoas e imediatamente pensava em como seria quando ela morresse, quem sentiria sua falta, em que situação seria. O mundo todo era visto sob uma ótima dramaticamente mórbida. Eu me sentia sendo perseguida pela morte e descobri o temor absurdo que tenho em morrer. Veja só, eu que tanto reclamo e lamento descobri a intrínseca verdade de Mário Quintana: "Vale a pena viver nem que seja para dizer que não vale a pena". E parece que conforme vou crescendo, ao mesmo tempo que vou me conformando a não encontrar sentido em certas coisas da vida, me recuso a desistir de encontrar um sentido nisso tudo.
Continuo pensando a respeito de morte e vida. E muito! Mas agora com uma ansiedade por compreensão mais calma e sensata. Estou digerindo as coisas mais lentamente e com menos medo. Antes, era como se quanto mais eu lesse ou pensasse sobre a morte mais perto ela estaria de mim. Veja, quanta bobagem! Eu tinha medo do pensar. Mas não agora. Na verdade, refletir tanto sobre a morte, por um lado tem me tranquilizado.
E parando pra pensar, confesso que por um lado foi bom que tudo tenha acontecido. Só então, eu pude ver com total clareza o que é realmente importante na minha vida e comecei a me questionar como quero ser lembrada quando morrer. Definitivamente, não como alguém rude. Isso me estimulou a querer melhorar como ser-humano, a crescer. Eu não sei quanto tempo eu tenho, mas qualquer seja, o tempo que tiver quero aproveitar da melhor forma que eu for capaz.
Perder um ente querido me deu a chance de realmente sentir o quanto tudo é absurdamente e assustadoramente efêmero e como sou impotente diante disso. Já tinha ouvido e pensado nisso, mas só agora eu pude compreender o significado desta questão. Não há nada que se possa fazer sobre envelhecer e morrer. É nosso destino. É meu destino. O que posso fazer é aproveitar enquanto as pessoas que amo estão ao meu lado e aproveitar cada momento da minha existência. Sobretudo dar valor ao que tenho e fazer o que gosto, para que então, quando a hora de partir ao mistério da inexistência, eu não me arrependa e me sinta feliz com o que vivi.
Estou realmente aproveitando pequenas coisas. Descobri que a felicidade está em poder sorrir com quem você gosta, abraçar uma pessoa querida, ler um bom livro, olhar para o céu, ver um bom filme... A felicidade também está no singelo e só agora posso ver isso. É como se a morte de meu avô tenha aberto meus olhos para a vida.

"Eu não fui feito para a vida, mas parece que a vida foi feita para mim..."